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sábado, 3 de novembro de 2012

Morro de São Paulo (Ba), sábado, 3 de novembro de 2012


Querida Pietra,

Talvez esta seja a última carta que mando nesta viagem. Daqui a alguns dias estarei colocando meu corpo no mundo outra vez, apontarei o polegar para o alto em busca de caminhoneiros que deem caronas longas rumo ao sul do país.

Como esperado, mochilar pelo Brasil está sendo a experiência mais profunda que vivi até hoje. Os caminhoneiros são pessoas surpreendentes, por exemplo. Conheci um, o Petrúquio, em uma carona de Campo Grande, MS, até Três Lagoas, na divisa com o estado de São Paulo, que era um cara inteligente pacas! Já tinha lido O Xogum e muitos outros livros, na juventude foi professor normalista e sabia bastante das estradas, mulheres e malandragens. Também teve o Elder, que como caminhoneiro era um baita empresário. Lembro que ele dirigia um Volvo muito confortável e bem organizado, tinha outros caminhões rodando com funcionários, era educado e uma ótima companhia.

Em Bonito, MS, tive o prazer de comer no restaurante de comida caseira de um casal que aceitou nos fazer um precinho camarada que ficou bom para todos porque eu e a Mônica íamos lá todos os dias. Tive ajuda em Curitiba também. Um Chileno muito trabalhador de lá ensinou a Mônica a escrever o nome no grão de arroz; esse foi nada menos do que o trabalho que sustentou a viagem.

Sempre que lembro dessas coisas penso como o nosso povo é inacreditável. Como pode, com tantos pedágios, impostos, e achaques policiais, um caminhoneiro ter a coragem de viver de seu trabalho em nosso país? Em Curitiba, os mesmos hippies que nos ajudaram e acolheram com tanto carinho tiveram que impetrar um mandato de segurança para continuar trabalhando na praça em frente à reitoria da universidade federal. Outro dia ainda, na casa do Oberdan, em Ouro Preto, fiquei pasmo ao saber que ele ganhava quase menos que um salário mínimo para trabalhar de recepcionista no Hotel de um dos caras mais ricos da cidade. O milionário Gleiser Boroni, na época candidato a prefeito, descontava até o material de limpeza dos quartos de seus funcionários.

Sério, não paro de me surpreender nunca com a pequenez dessa burguesia nojenta. Aqui mesmo no Morro de São Paulo, fui tomar uma cerveja na segunda praia há dois dias e na hora de pagar a conta, perguntei pro garçom se ele ganhava mesmo os dez por cento. A resposta dele foi ainda pior do que eu esperava. Ele ganha isso. E trabalha aquele guri! Deus do céu, tá sempre rindo, alegre, chamando gente pro bar, serve as mesas, faz de tudo. Nesse dia, injuriado, fui no caixa e falei pra gerência que aquilo era uma vergonha e que nunca mais entraria naquela birosca.

– Esse é o sistema da ilha, moço – tive que ouvir. – É assim que funciona em todo o Morro.

Pietra, perdoe se essa carta está saindo um desabafo, mas é isso mesmo. Estou revoltado pra caralho. Tenho vontade de bater em um monte de gente monstruosa que vejo por aí.

Ontem à noite mesmo. Depois de suar a camisa literalmente andando na areia da praia pra vender artesanato debaixo do sol do nordeste, conseguimos ganhar um dinheirinho, nada de mais. Estávamos esperando este feriadão para guardar alguma coisa para as necessidades da estrada na volta para casa. Ralamos vários dias para pagar o aluguel da quitinete que estamos só para ficar até esse feriado, preparamos nossos trampos direitinho e fomos felizes expor. E tudo isso para chegar um fiscal da prefeitura e dizer na minha cara que eu não posso vender nada por que não tenho licença.

– Ok, senhor, mas o caso é o seguinte: eu fui na prefeitura e solicitei uma licença, só que não vão me conceder porque “já tem gente demais trabalhando na praia”. Roubar eu não vou, quer que eu faça o quê?

– Tem que tirar o painel da rua ou vamos recolher tudo.

Nessas horas o desgosto é muito grande. Tinham uns caras com as namoradas ali na hora, a Mônica estava fazendo colares com os nomes no arroz para eles. Eles mesmos ficaram putos dizendo “nesse país o certo é roubar mesmo!”, “o casal ta trabalhando, deixa eles” etc. E eu tentando falar educadamente com o chefe do fiscal, que era um velho tremendamente imbecil.

Nada contra ele, na verdade. Coitado, também é trabalhador como eu. O problema real é a prefeitura de Cairú cobrar R$ 170 por ano para liberar uma licença de trabalho para hippies que nem os artesãos locais conseguem para si. Ninguém, praticamente, consegue a licença, mesmo que queira pagá-la.

Recolhi meu painel ontem à noite e fui pensando nessas coisas. Estava todo doído do trabalho, fedendo mesmo de suor, a pele queimada do sol forte que fez horas antes naquela tarde. Tentei fazer a sensação de desgosto sair do fundo do estômago tomando uma cerveja com a Mônica, que também estava arrasada, mas aquilo não passava. Então, caminhando de cabeça baixa para casa, passei na praça central e haviam muitas pessoas lá por causa do feriado. Um grupo de tiozões se reuniu para tocar informalmente por ali.

Respirei fundo, tentei ser forte, mas quando começaram os primeiros acordes de Vida de Gado, do Zé Ramalho, não consegui segurar o choro. Puxei a Mônica em um abraço e deixei a coisa rolar mesmo. Uma revolta que todo trabalhador deve sentir de vez em quando, um sentimento de que está tudo errado, de que um povo tão bravo como o nosso não pode ser tratado desse jeito. E, sinceramente, quando digo “bravo”, não é em mim que penso. Mas no meu avô, que para criar os filhos trabalhava o dia inteiro na roça por um quilo de banha e nada mais – morreu pobre depois de décadas de trabalho. Penso na minha mãe que me levava doente para o local de trabalho dela porque não tinha com quem me deixar quando eu era criança.  No meu pai, que é Policial Militar a vida inteira, e que volta e meia perde algum colega de trabalho morto, e que precisa fazer trabalhos extras para complementar a renda.

Por essas coisas mesmo que eu sei que não vou deixar de militar nunca. Enquanto puder vou me organizar com os meus para mudar à força essa realidade injusta. Nunca vou aceitar que digam que o Brasil é mesmo uma merda, porque o Brasil é o povo, e eu nunca vi em filme, e nem em livro, um povo mais sofrido, alegre, lutador e solidário que esse.

Era isso que eu queria te dizer nessa carta, Pietra. Como dizia o Chê: “É preciso endurecer-se, mas sem perder a ternura, jamais”.

Preciso te agradecer pela companhia e força que de fato sinto comigo, assim como a de todos os amigos e familiares que me apoiam sempre. Para mim foi muito importante compartilhar essas coisas. Quero que tu saiba que eu continuo firme no meu sonho. Vou botar meus textos no painel com as outras coisas e sair para trabalhar hoje à tarde e de noite também. Não sei o que vai acontecer, vou deixar nas mãos de Deus, Universo, Vida... Chame como quiser.

Um abraço sofrido,
Felipe. 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Nioaque, 14 de agosto de 2012, quase meia noite


Oi, Bárbara Andres!

Onde diabos fica essa grota chamada Nioaque, tu deve estar se perguntando. Eu também estou querendo saber... No momento estou deitado numa cama de casal de um hotel muito xexelento com ar-condicionado (que não funciona), chuveiro (que não desliga – acho que vai sair água a noite inteira), cheiro de mofo e roupa de cama gordurosa. Não que isso seja um grande problema, na verdade eu mesmo estou bem gorduroso depois de horas na estrada comendo poeira dentro de um caminhão velho dirigido por um baita gente boa chamado Marcelo.

Perto do lindo balneário municipal de Bonito pegamos carona com o Marcelo e sua carga de calcário. Ele nos deu uma carona de 100 quilômetros, o que é bem bom. Daí tentamos pegar outra carona por coisa de duas horas e nada. Entardeceu e tivemos que ficar aqui. A cidade é bem pobre, sabe? Pensamos que não íamos conseguir vender nada, mas até que nos surpreendemos quando com seguimos fazer 20 pilas, mesmo valor pago por esta cama na qual te escrevo. 

Hoje cedo, quando ainda estava na vida mansa em Bonito, vi nos feicibuqui que tu comprou uma bicicleta. Põrran! Ainda disse que estava na pior! Curti a cor da tua Mafalda e achei que tem tudo a ver contigo uma bicicleta speed. Voa na cidade e apavora no trânsito aí! Mas te cuida, né.

Agora estou sem internet e, portanto, longe das notícias do mundo. Claro que não tem wireless no meu hotelzinho. Na real, fico reclamando, mas tem uma coisa neste pulgueiro que gosto muito.  Quando lia os poemas e contos do Bukowski e do Kerouac também, os personagens sempre acabavam ficando em lugares assim. Caralho, eu achava aquilo demais. Uma vida simples de mochileiro país afora com pouco dinheiro no bolso e ficando em lugares completamente fuleiros. Bom, é estranho estar aqui agora, dentro da literatura que mais tem me apaixonado nos últimos tempos. Tem sido boa essa aventura.

Logo mais vou enfrentar o chuveiro gelado para ter o gosto de deitar limpo do lado da Mônica e fazer amor finalmente a sós. Nos últimos oito dias estivemos no JK do Luiz, que foi quem nos hospedou em Bonito, e não pudemos nos sentir totalmente a vontade. Por mais que este quartinho seja simples, não posso reclamar, é nosso.

Para finalizar, quero dizer que nossa viagem está repleta de altos e baixos onde a vida de uma forma ou outra sempre está tentando nos animar. Por exemplo: hoje, quando estávamos desistindo de pegar carona aqui nesse cu de mundo no Mato Grosso do Sul, sujos, cansados e mau-humorados, eis que algumas araras selvagens surgiram em revoada sobre nossas cabeças.

Eu e a Mônica sempre tentamos aproveitar esses pequenos abraços que a vida da de vez em quando. Estamos bem um com o outro, até agora sobrevivemos bem a essa convivência de dias e dias sem parar. Espero que tu e o Luis também estejam ótimos. Se não, espero que tu esteja. Te desejo toda a coragem do mundo para tocar as coisas da tua caminhada.

Ah! Espero que tu responda esta carta. Pode mandar para o endereço do remetente que eu leio quando chegar em casa.

Até lá, saudades!

domingo, 5 de agosto de 2012

Bonito, MS, 5 de agosto de 2012, domingo desgraçadamente ensolarado


Renato,

Tu deve estar se perguntando por que diabos estou mandando uma carta quando é tão fácil passar aí no Sindicâmara e fazer uma visita aos velhos companheiros. Então, explicar isso é o motivo desta missiva.

Nunca mais fui aí, embora não faltasse vontade. Não foram poucas as vezes em que passei perto da nossa sede e quis saber de ti e do pessoal da diretoria. Mas me segurava porque tinha vergonha. Os meses iam passando e eu não estava nem um pouco mais perto de conseguir um emprego de repórter. Isso me envergonhava, não queria decepcionar ninguém, e sempre senti que vocês me tinham em tão alta conta!

Verdade seja dita, quando faltavam dois semestres para terminar a faculdade, eu, no fundo, já sabia que não seria feliz trabalhando como jornalista. São tantas injustiças cotidianas, a verdade espremida entre interesses comerciais, ou matérias feitas só pra agradar o fulano. Tu me conhece, caro presidente, eu tenho esse jeito meio rebelde e nunca aprendi a abaixar a cabeça pra essas coisas. Isso e mais a teimosia herdada do meu pai fariam de mim um grande revolucionário, mas um jornalista desempregado.

Com o tempo foi crescendo a convicção interna de que minha verdadeira vocação estava bem na minha cara, perto, muito perto. Logo depois de terminar a faculdade, em agosto passado, comecei despretensiosamente a escrever um livro. Há anos eu queria fazer isso, um velho sonho que sempre mantive aceso. Por essa época ainda fiz uma última visita ao Sindicâmara, lembra? Estava na pior com os cornos que tinha levado da minha então noiva. Fiquei realmente mal, aquela pancada eu não esperava. Depois pude descobrir que esse mal veio para o bem, a vida é soberana.

Durante o tempo em que trabalhei contigo, consegui guardar uma boa quantia de dinheiro, e como voltei para casa, quase não tive gastos. Isso foi fundamental para eu conseguir sobreviver com alguma autonomia nesse ano que passou. Desde então me descobri escritor. A técnica de produção textual aprendida na faculdade me ajudou pra caramba a produzir com certa qualidade, mesmo pra um escritor iniciante.

Agora meu livro (literatura fantástica, cheio de magia e outras loucuras) está quase pronto. Em novembro, quando terminar a revisão, vou enviá-lo pra a Rocco que está com um processo de seleção para novos escritores. Depois mando pra o máximo possível de editoras e vou seguindo o trabalho. Também tenho um terço pronto de outro livro, este sobre uma serial killer que viaja pelo Brasil matando as pessoas que acha interessantes, como se fosse uma experiência de “dissecar vidas”. O nome dela é Dora, recentemente mandei esse texto pra Fundação Biblioteca Nacional, estou concorrendo a uma bolsa para produção de romances.

Mas como afinal estou sobrevivendo até agora, tu deve estar se perguntando. Bem, no momento, vivo como uma espécie de hippie moderno. Estou fazendo uma viagem de alguns meses pelo país na qual vou anotando e escrevendo coisas (principalmente cartas) enquanto pessoas inscritas num site de hospedagem me chamam para o teto delas por uma semana. Depois, pego carona, eu e minha nova namorada (sabe que eu não sou de ferro, né?!), e vou pra outra cidade aprender sobre as pessoas e lugares. Estou conhecendo muita gente incrível, o Brasil é um país sem igual, principalmente por causa dos brasileiros.

Pelas cidades, levo um painel carregado com contos, reportagens e textos de vários tipos que vendo uns por dois, outros por cinco, seis reais. Dia desses escrevi uma história infantil. Paguei duzentos reais para um cara ilustrar, o trabalho dele é realmente muito legal, ficou ótimo. Esse livreto, “A história de Miguel, o sonhador”, vendo por dez.

Estou há vinte dias na estrada. Parece mais, bem mais. Quando se vive dias muito diferentes uns dos outros, se vive intensamente, o tempo passa diferente... Por falar nisso, quando é que tu vai tomar coragem e se aposentar, meu velho? Eu sei que ficar em casa tomando cerveja e assistindo o Faustão não é bem a tua. Tu é um desses velhotes cheios de energia, a cabeça fervilhando de ideias – por falar nisso vi aquele protesto anunciado no site para o início de agosto. Morri de rir com os “personagens sombrios oriundos diretamente do período medieval” e vi de cara que aquele texto é teu. A ideia também, só pode ser. Tenho certeza de que tu, se tivesse conhecido as pessoas certas na juventude, teria saído um baita anarquista, daqueles que leem poesias do Bakunin e tudo.

Queria te dizer que vale a pena se aposentar, Renato. Enfia o pé no mundo e redescobre tudo! Tu tem a coragem que precisa, só deve estar um pouco enferrujado. Agarra a nega veia pela mão e vive tua vida em cada dia. É isso que desejo pra ti, não saberia pedir algo melhor.

Enfim, demorei até agora para mandar essa carta porque queria estar bem quando te enviasse notícias. Posso não estar rico, mas estou feliz, vivo minha vida da maneira que acredito. Vou vender meu trabalho nas ruas do país pra ter o que comer até que alguma editora me publique, tenho certeza de que isso logo acontecerá. Por enquanto vou conhecendo o máximo que posso desse país tão enorme de tirar o fôlego.

Em novembro devo voltar pra casa. Já passei por Curitiba, Londrina e um sem número de cidades pequenas até Bonito. Depois de conhecer as belezas naturais daqui, uma das cidades mais incríveis do país, sigo viagem para Campo Grande, São Tomé (MG), Vitória, até a Bahia. Quero passar um tempo por lá. Na volta vou te fazer uma visita aí no Sindicâmara. Quem sabe marcamos um almoço com a diretoria, ou um tragão mesmo já que beber com os amigos é tão bom!

É isso que eu tinha pra te dizer, presidente. Espero que as coisas por aí estejam muito bem. Manda um abração meu pro Oli, pro Vargas, pro Fabrício, pra Sílvia e um especial pra ti, por conta dos dois anos em que convivemos, rimos, e peleamos.

Se quiser responder esta carta, coisa que eu ia gostar muito, é só mandar para o endereço do remetente. Vou pedir pra minha mãe guardar até que eu volte daqui a alguns meses.
Ate lá, saudades, velho amigo.

P.S.: sempre vou lembrar daquele fim de tarde em que fechamos as cortinas do Sindi juntos pela última vez. Senti uma onda de melancolia tão forte que nem consegui dizer todas as coisas que tinha planejado por semanas e semanas...

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Paraná, rodando, 1º de agosto 2012


Tô anotando aqui alguns lugares por onde estou passando. A coisa ta assim: depois de Londrina atravessei Rolândia e dormi em Jaguapitã (bem-vindo à capital do bilhar). No dia seguinte, passei por Miraselva e Florestópolis rumo a Porecatú. Isto para chegar em Presidente Prudente, a única dessas cidades de qual já ouvi falar. De lá, o plano é seguir pedindo carona até o Mato Grosso do Sul. A Mônica está louca para conhecer Bonito. Acho que vai ser legal. 

sábado, 28 de julho de 2012

Londrina, Cemitério de Automóveis, final de julho, 2012


O bar em que estou é um lugar original. Algumas pessoas na faixa dos quarenta pra cima (a maioria mulheres) sobem ao palco para ler poesias diante do microfone. O centro cultural é tocado por um barbudo que se chama Mário. Que cara de comuna ele tem.

Algumas mulheres leem poesias bem sacanas. Fico imaginando como estão suas vidas sexuais. Poesias eróticas são legais.

A única cerveja do bar é Itaipava, por quatro reais. Nada mal. Tem um monte de cartazes do festival literário de Londrina pelas paredes, o Londrix. Queria conhecer. A Mônica, sentada aqui do lado, bebe sua cerveja distraída enquanto ouve as poesias. Trouxemos nossos trampos no painel de pvc. Por enquanto não vendemos nada, mas tudo bem, o lugar é legal.

Tem uma mulher do outro lado da grande mesa em que estou. Ela tem aquele cabelo preto, chanel, usa óculos que a deixam com pinta de cult. Deve ter pouco mais de trinta. O Evangelista, o cara que nos convidou pra vir aqui, diz que tem um caso com ela, embora ela negue. Ele é um pintor decadente. Faz tempo que já é velho e feio, imagino. Vende quadros no centro com os outros malucos. Parece um bom sujeito, desses que tem alma.

Passou um tempo e eu pensei que não ia vender nada. Aí chegou um cara que se apresentou como Vitão. Ele deu 50 pilas por um exemplar de cada um dos meus textos e mais uma das camisas da Mônica. Ficamos os dois num alto astral depois disso. Quando acabou o recital, dançamos improvisando uns passos de forró. Estávamos felizes.


terça-feira, 24 de julho de 2012

Paraná, terça-feira nublada, 24 de julho de 2012


Tita,

Te escrevo de uma sacada em um bairro pobre de Londrina. Lá embaixo, no pátio, um pastor alemão passa o tempo em corridas ao portão para espantar quem vai pela calçada. Ele se chama Aike, e é um cara legal.

Bebo devagar o chimarrão enquanto passo os olhos no retrato da paisagem local: do outro lado da rua, num desses grandes terrenos baldios, um burro magro pasta em touceiras de mato ralo; um guri pré-adolescente cruza a rua gingando com o celular ligado no volume máximo (não sei a música, mas é um desses pops americanos); no terreno do lado esquerdo, alguns montes de sucata lembram uma espécie de arte abstrata sobre caminhões. Tem um cachorro ali, meio boxer meio vira-latas, comprido e magro, ele estica o metro de corda que o prende na árvore ao máximo e fica olhando para dentro de casa, esperançoso. Esse cachorro tem profundas manchas escuras em volta dos olhos, como se fossem olheiras desenvolvidas pela tristeza – está difícil me concentrar com ele ali ao lado...

Chegamos em Londrina hoje, perto da uma da manhã. Eu e a Mônica estamos hospedados com um casal da nossa idade. Eles são bem bagunceiros e preguiçosos como a gente, estamos bem à vontade. Já deu para ver que são pessoas bem legais. Ainda não falamos com eles tanto quanto queremos, porque quando chegamos estávamos cansados da viagem de Curitiba até aqui e agora eles ainda não acordaram.

Quero dividir contigo a experiência da viagem. Ao meio dia de ontem chegamos no posto de gasolina “Guarani”, na saída de Curitiba, onde havíamos passado uma semana. Comemos pão, margarina e mortadela (estava bom demais) e fomos para a beira da BR 277 com um papelão que dizia “Londrina, Hippies”. Não sei se foi o cartaz, ou a nossa cara de empolgados, mas em menos de cinco minutos um caminhoneiro ofereceu carona. Disse que poderia nos levar até uma cidadezinha a uns 100 km de Londrina, o que era ótimo, nos faria percorrer dois terços do caminho.

Nas primeiras horas de viagens ficamos só rindo. Os três, dentro do caminhão, felizes cada um a sua maneira. O Jessé contou que não costumava dar caronas por medo de assaltos, embora estivesse contente de ter com quem conversar; e a Mônica e eu felizes por termos pego carona com um cara simples e simpático no confortável Mercedez carregado de madeira para fabricação de móveis.

Só que depois de algumas horas a animação passou. Comecei a sentir um sono invencível na boleia. Só havia a estrada balançado o caminhão pesadamente em curvas, descidas e subidas e o sol morno da tarde dentro da cabine. O Jessé, quando me viu pescar, ameaçou dar um disparo com a pistola de ar de limpar a poeira do caminhão: “faço isso quando tenho algum amigo viajando comigo e ele dorme”. Odeio ser acordado com brincadeiras, então dei o melhor sorriso que pude e tentei resistir ao sono.

Ao longo da tarde descobri que o Jessé é uma pessoa muito interessante. Carrega uma grande solidão por estar sempre sozinho nas longas horas da estrada. Às vezes se diverte, nos contou, gritando bem alto os sertanejos românticos que tocam suas coletâneas piratas. Tem trinta anos, apesar de parecer um pouco mais, de certo por causa da pele queimada do sol. Nós ouvimos a história da separação dele, do casal de filhos pequenos que vê sempre que pode, das prestações do caminhão... Ele também nos ouviu. Contamos da nossa viagem e outras coisas. Grande Jessé. Tem bons ouvidos, uma característica rara hoje em dia; e ainda disse que somos corajosos!

Quando o sol começava a se por, paramos em um posto. Para nossa surpresa, lá estava uma hippie que tínhamos visto pedindo carona no começo da viagem. Fiquei muito empolgado e gritei para ela chegar mais perto do caminhão. Ela pensou um pouco, de cara feia, com certeza achou que eu preparava alguma piadinha infame. O Jessé estava ali embaixo e falou com ela. Depois de alguns instantes já tínhamos embarcado as malas e aquele expositor de PVC com pulseiras e brincos que os hippies carregam e rodávamos juntos conversando empolgados.

Não vou te aborrecer com todos os detalhes, mas preciso dizer que a Fran vinha pedindo carona desde São Paulo porque tinha brigado com o caminhoneiro com quem estava vivendo. Ela era uma dessas pessoas doídas, espontâneas e com um sotaque misto de paulista, paranaense e sei lá mais o quê. Disse que a mãe morreu quando tinha 10 anos, então foi adotada por um casal que batia muito nela. Aos 15 fugiu de casa para escapar do espancamento e desde então não conseguiu mais sair da estrada.  A fran está agora com 26 anos.

Não demorou muito para o Jessé disparar aquelas cantadas de caminhoneiro (iguais as de pedreiro) na pobre hippie. Ela ficava quieta nesses momentos, embora fosse bem falante. Mas todos vimos que o Jessé era um meninão de 30 anos, um romântico inveterado que se sente muito só. O sonho dele é encontrar uma mulher para dividir a estrada e a boleia. Pena que seja tão difícil alguém suportar essa vida de banhos em postos de gasolina, pouco sono e muita pressa.

Em certo ponto da estrada nos deparamos com um engarrafamento. A pista estava bloqueada porque dois caminhões tinham se chocado horas antes. Estava tudo parado nos dois sentidos. Escureceu rápido, a gente continuava conversando, chegamos a conclusão de que passaríamos a noite parados ali.Tinha mato dos dois lados da pista, o cheiro era ótimo. A Mônica e eu decidimos sair do caminhão para dar uma volta. O céu daquela noite estava realmente estrelado. Víamos aquela poeira brilhante que é a Via-Láctea sem nenhuma luz que ofuscasse mesmo a menor das estrelas cadentes (vi duas!). Enquanto andávamos, descobrimos uma escada que subia um barranco. Fomos até lá, perto da cerca que protegia vários hectares de grama. Lá em cima, protegidos pela escuridão densa da noite, fizemos amor debaixo daquele céu escandaloso, sentindo um misto de apreensão e tesão pela vida.

Demorou algumas horas para o trânsito ser liberado, mas não tanto quanto pensamos no começo. O Jessé conseguiu nos deixar ainda mais perto do que tinha prometido, ficamos a uns 30 km de Londrina lá pelas 23h. Quando saímos do caminhão, nos despedimos com abraços de verdade daqueles que se dá quando se formam as amizades instantâneas, assim como foi a nossa, Tita. Levo até agora a sensação precisa de que existem mais pessoas boas do que ruins nesse mundão, e isso me faz tão bem.

Bom, aqui estou. Não te vejo desde o meu aniversário no Comitê. Queria saber como tu está. Lembro de ter ficado muito feliz ao ver que tu se divertia e mostrava mais confiança na tua própria força. Gosto de te ver andando para frente, mesmo que nem sempre os passos sejam firmes, o que importa é caminhar. Me pergunto se algum gaiato conseguiu ir para a tua cama e permanecer lá para tomar café contigo no outro dia. Te cuida por aí.

Com saudades, Felipe.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Curitiba, posto Guarani, 23 de julho de 2012, segunda-feira


Aquela sensação de que se está vivendo um momento do qual você se lembrará por muito tempo está presente. O céu está azul, os caminhões roncam seus motores, tem uma cadela aqui, de pelo castanho. Ela parece desejar boa viagem, mas na verdade só quer descolar o desejum. 

Acabamos de tomar o café da manhã aqui mesmo. Comemos massinha com margarina e mortadela.

Quem será que vai nos dar a primeira carona? A vida é um universo de possibilidades.


Mais tarde

Pegamos carona!

O Jessé é um caminhoneiro rechonchudo de uns trinta e poucos anos que diz que o Brasil é um país abençoado. Ele mexe no celular e dirige. Perguntei como as coisas tem ido. “Se eu falar que não ta bom é por ser sem vergonha, por ser jaguara mesmo. Tô tão bem que tô até desconfiando.” O Mercedez dele, que os filhos apelidaram de Polaquinho, roda bem, embora não seja muito potente. Ele diz que queria mesmo é ter um Scânia.

O Jessé faz poucas e rápidas paradas. Dez minutos para almoçar, cinco para ir ao banheiro. “Tenho que acelerar”, explica, “senão não venço as prestações do caminhão”.

A estrada se espicha em curvas, subidas e descidas.

No meio da viagem encontramos uma hippie. O Jessé quis dar carona pra ela também. Ela contou estar na estrada desde os 15. Agora tem 26. “To cansada de carregar peso, de dormir em posto de gasolina. Quero alugar um cantinho pra mim”. Ela contou que estava vivendo com um caminhoneiro. Só que ele era muito muquirina. Reclamava até de quanto ela comia. Aí ela encheu o saco, mandou ele parar o caminhão e saiu andando por uma rodovia que da acesso a São Paulo. Simplesmente mudou de lado e apontou o dedo até chegar ali, no Paraná. Seu destino final era Maringá.

E lá estávamos nós quatro no mesmo caminhão. Reunidos por puro acaso.

sábado, 21 de julho de 2012

Curitiba, 21 de julho de 2012, sábado


Agora há pouco, quando olhei esse caderno tive um certo trabalho pra me convencer de que foi ontem que escrevi pela última vez. Os dias são tão longos quando se vive sem perda de tempo.
                                            
Ontem à noite saímos com o Roberto e a Márcia para beber. Ficamos na fila esperando pra entrar num bar chique. Bebemos até ficar no brilho e saímos. Eles nos convidaram pra ir dançar num bailão. Fazia muito tempo que eu não ia num lugar desses. Lá todo mundo tinha jeitão de pobre e uma certa vulgaridade no dançar. Me senti em casa.

Depois de dançar um monte de músicas sertanejas, chegamos em casa e fomos dormir. Acordamos pela manhã (o que é raro) e fomos trabalhar na praça em frente à Reitoria da Universidade Federal. Lá estavam uns malucos que havíamos conhecido no dia anterior. O seu Norberto, um gaúcho desses apaixonados pelo Rio Grande, foi muito simpático com a gente. É um daqueles tipos que sozinhos parecem encher uma casa inteira com suas piadas e fanfarronices.

Além dele e de outros, tem o Chileno. O cara tem um tipão meio magal. Usa uns óculos escuros, roupas de gurizão, embora tenha pra lá de quarenta. Ele me contou que sustenta a família com os badulaques que vende. E com o artesanato do grão de arroz. “Xô escribo asta cuatro noumbres nun grano de arrô”, é o que eu ouço da fala dele, cheia de sotaque.

Vendo que a gente não ganha nenhum dinheiro, ele veio e se ofereceu para ensinar essa técnica. Disse que poderia ajudar a ganhar alguma coisa na estrada. Cara legal.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Curitiba, 20 de julho de 2012, sexta-feira, casa do Roberto e da Márcia

Saí de Porto Alegre há três dias. 

Eu e a Mônica pegamos o avião por volta das 6h. Quando chegamos em Curitiba, coisa de uma hora e meia depois, ficamos perambulando várias horas. Até às 19h, quando encontraríamos nosso anfitrião, não tínhamos para onde ir ou o que fazer. 

Almoçamos numa birosquinha de comida caseira (um prato de feijão, arroz, carne, salada e suco de pacote por cinco pilas) onde uma senhora que não tinha um dos dentes da frente nos tratou muito bem. Depois de algum tempo, estando exaustos e com sono, fomos até o shopping Estação para descansar. Pouco antes das 14h começaria o filme “Na Estrada”, adaptação do livro do Kerouac que me ajudou a sonhar essa viagem. Mal havíamos sentado nas poltronas vermelhas e macias do cinema, adormecemos. 

Quando acabou o filme, saímos da sala 3 e entramos sorrateiramente na 10. Tava passando o remake do Homem Aranha. Dormimos por quase duas horas. Fomos encontrar o Roberto. Ele nos levou pra casa. Sorrimos, comemos e dissemos boa noite. Dormimos por quase 12 horas.