Oi, Bárbara Andres!
Onde diabos fica essa grota chamada Nioaque, tu deve estar
se perguntando. Eu também estou querendo saber... No momento estou deitado numa
cama de casal de um hotel muito xexelento com ar-condicionado (que não
funciona), chuveiro (que não desliga – acho que vai sair água a noite inteira),
cheiro de mofo e roupa de cama gordurosa. Não que isso seja um grande problema,
na verdade eu mesmo estou bem gorduroso depois de horas na estrada comendo poeira
dentro de um caminhão velho dirigido por um baita gente boa chamado Marcelo.
Perto do lindo balneário municipal de Bonito pegamos carona
com o Marcelo e sua carga de calcário. Ele nos deu uma carona de 100 quilômetros,
o que é bem bom. Daí tentamos pegar outra carona por coisa de duas horas e
nada. Entardeceu e tivemos que ficar aqui. A cidade é bem pobre, sabe? Pensamos
que não íamos conseguir vender nada, mas até que nos surpreendemos quando com
seguimos fazer 20 pilas, mesmo valor pago por esta cama na qual te
escrevo.
Hoje cedo, quando ainda estava na vida mansa em Bonito, vi
nos feicibuqui que tu comprou uma
bicicleta. Põrran! Ainda disse que estava na pior! Curti a cor da tua Mafalda e
achei que tem tudo a ver contigo uma bicicleta speed. Voa na cidade e apavora
no trânsito aí! Mas te cuida, né.
Agora estou sem internet e, portanto, longe das notícias do
mundo. Claro que não tem wireless no meu hotelzinho. Na real, fico reclamando,
mas tem uma coisa neste pulgueiro que gosto muito. Quando lia os poemas e contos do Bukowski e do
Kerouac também, os personagens sempre acabavam ficando em lugares assim.
Caralho, eu achava aquilo demais. Uma vida simples de mochileiro país afora com
pouco dinheiro no bolso e ficando em lugares completamente fuleiros. Bom, é
estranho estar aqui agora, dentro da literatura que mais tem me apaixonado nos
últimos tempos. Tem sido boa essa aventura.
Logo mais vou enfrentar o chuveiro gelado para ter o gosto
de deitar limpo do lado da Mônica e fazer amor finalmente a sós. Nos últimos
oito dias estivemos no JK do Luiz, que foi quem nos hospedou em Bonito, e não
pudemos nos sentir totalmente a vontade. Por mais que este quartinho seja
simples, não posso reclamar, é nosso.
Para finalizar, quero dizer que nossa viagem está repleta de
altos e baixos onde a vida de uma forma ou outra sempre está tentando nos
animar. Por exemplo: hoje, quando estávamos desistindo de pegar carona aqui
nesse cu de mundo no Mato Grosso do Sul, sujos, cansados e mau-humorados, eis
que algumas araras selvagens surgiram em revoada sobre nossas cabeças.
Eu e a Mônica sempre tentamos aproveitar esses pequenos
abraços que a vida da de vez em quando. Estamos bem um com o outro, até agora
sobrevivemos bem a essa convivência de dias e dias sem parar. Espero que tu e o
Luis também estejam ótimos. Se não, espero que tu esteja. Te desejo toda a
coragem do mundo para tocar as coisas da tua caminhada.
Ah! Espero que tu responda esta carta. Pode mandar para o
endereço do remetente que eu leio quando chegar em casa.
Até lá, saudades!
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