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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Nioaque, 14 de agosto de 2012, quase meia noite


Oi, Bárbara Andres!

Onde diabos fica essa grota chamada Nioaque, tu deve estar se perguntando. Eu também estou querendo saber... No momento estou deitado numa cama de casal de um hotel muito xexelento com ar-condicionado (que não funciona), chuveiro (que não desliga – acho que vai sair água a noite inteira), cheiro de mofo e roupa de cama gordurosa. Não que isso seja um grande problema, na verdade eu mesmo estou bem gorduroso depois de horas na estrada comendo poeira dentro de um caminhão velho dirigido por um baita gente boa chamado Marcelo.

Perto do lindo balneário municipal de Bonito pegamos carona com o Marcelo e sua carga de calcário. Ele nos deu uma carona de 100 quilômetros, o que é bem bom. Daí tentamos pegar outra carona por coisa de duas horas e nada. Entardeceu e tivemos que ficar aqui. A cidade é bem pobre, sabe? Pensamos que não íamos conseguir vender nada, mas até que nos surpreendemos quando com seguimos fazer 20 pilas, mesmo valor pago por esta cama na qual te escrevo. 

Hoje cedo, quando ainda estava na vida mansa em Bonito, vi nos feicibuqui que tu comprou uma bicicleta. Põrran! Ainda disse que estava na pior! Curti a cor da tua Mafalda e achei que tem tudo a ver contigo uma bicicleta speed. Voa na cidade e apavora no trânsito aí! Mas te cuida, né.

Agora estou sem internet e, portanto, longe das notícias do mundo. Claro que não tem wireless no meu hotelzinho. Na real, fico reclamando, mas tem uma coisa neste pulgueiro que gosto muito.  Quando lia os poemas e contos do Bukowski e do Kerouac também, os personagens sempre acabavam ficando em lugares assim. Caralho, eu achava aquilo demais. Uma vida simples de mochileiro país afora com pouco dinheiro no bolso e ficando em lugares completamente fuleiros. Bom, é estranho estar aqui agora, dentro da literatura que mais tem me apaixonado nos últimos tempos. Tem sido boa essa aventura.

Logo mais vou enfrentar o chuveiro gelado para ter o gosto de deitar limpo do lado da Mônica e fazer amor finalmente a sós. Nos últimos oito dias estivemos no JK do Luiz, que foi quem nos hospedou em Bonito, e não pudemos nos sentir totalmente a vontade. Por mais que este quartinho seja simples, não posso reclamar, é nosso.

Para finalizar, quero dizer que nossa viagem está repleta de altos e baixos onde a vida de uma forma ou outra sempre está tentando nos animar. Por exemplo: hoje, quando estávamos desistindo de pegar carona aqui nesse cu de mundo no Mato Grosso do Sul, sujos, cansados e mau-humorados, eis que algumas araras selvagens surgiram em revoada sobre nossas cabeças.

Eu e a Mônica sempre tentamos aproveitar esses pequenos abraços que a vida da de vez em quando. Estamos bem um com o outro, até agora sobrevivemos bem a essa convivência de dias e dias sem parar. Espero que tu e o Luis também estejam ótimos. Se não, espero que tu esteja. Te desejo toda a coragem do mundo para tocar as coisas da tua caminhada.

Ah! Espero que tu responda esta carta. Pode mandar para o endereço do remetente que eu leio quando chegar em casa.

Até lá, saudades!

domingo, 5 de agosto de 2012

Bonito, MS, 5 de agosto de 2012, domingo desgraçadamente ensolarado


Renato,

Tu deve estar se perguntando por que diabos estou mandando uma carta quando é tão fácil passar aí no Sindicâmara e fazer uma visita aos velhos companheiros. Então, explicar isso é o motivo desta missiva.

Nunca mais fui aí, embora não faltasse vontade. Não foram poucas as vezes em que passei perto da nossa sede e quis saber de ti e do pessoal da diretoria. Mas me segurava porque tinha vergonha. Os meses iam passando e eu não estava nem um pouco mais perto de conseguir um emprego de repórter. Isso me envergonhava, não queria decepcionar ninguém, e sempre senti que vocês me tinham em tão alta conta!

Verdade seja dita, quando faltavam dois semestres para terminar a faculdade, eu, no fundo, já sabia que não seria feliz trabalhando como jornalista. São tantas injustiças cotidianas, a verdade espremida entre interesses comerciais, ou matérias feitas só pra agradar o fulano. Tu me conhece, caro presidente, eu tenho esse jeito meio rebelde e nunca aprendi a abaixar a cabeça pra essas coisas. Isso e mais a teimosia herdada do meu pai fariam de mim um grande revolucionário, mas um jornalista desempregado.

Com o tempo foi crescendo a convicção interna de que minha verdadeira vocação estava bem na minha cara, perto, muito perto. Logo depois de terminar a faculdade, em agosto passado, comecei despretensiosamente a escrever um livro. Há anos eu queria fazer isso, um velho sonho que sempre mantive aceso. Por essa época ainda fiz uma última visita ao Sindicâmara, lembra? Estava na pior com os cornos que tinha levado da minha então noiva. Fiquei realmente mal, aquela pancada eu não esperava. Depois pude descobrir que esse mal veio para o bem, a vida é soberana.

Durante o tempo em que trabalhei contigo, consegui guardar uma boa quantia de dinheiro, e como voltei para casa, quase não tive gastos. Isso foi fundamental para eu conseguir sobreviver com alguma autonomia nesse ano que passou. Desde então me descobri escritor. A técnica de produção textual aprendida na faculdade me ajudou pra caramba a produzir com certa qualidade, mesmo pra um escritor iniciante.

Agora meu livro (literatura fantástica, cheio de magia e outras loucuras) está quase pronto. Em novembro, quando terminar a revisão, vou enviá-lo pra a Rocco que está com um processo de seleção para novos escritores. Depois mando pra o máximo possível de editoras e vou seguindo o trabalho. Também tenho um terço pronto de outro livro, este sobre uma serial killer que viaja pelo Brasil matando as pessoas que acha interessantes, como se fosse uma experiência de “dissecar vidas”. O nome dela é Dora, recentemente mandei esse texto pra Fundação Biblioteca Nacional, estou concorrendo a uma bolsa para produção de romances.

Mas como afinal estou sobrevivendo até agora, tu deve estar se perguntando. Bem, no momento, vivo como uma espécie de hippie moderno. Estou fazendo uma viagem de alguns meses pelo país na qual vou anotando e escrevendo coisas (principalmente cartas) enquanto pessoas inscritas num site de hospedagem me chamam para o teto delas por uma semana. Depois, pego carona, eu e minha nova namorada (sabe que eu não sou de ferro, né?!), e vou pra outra cidade aprender sobre as pessoas e lugares. Estou conhecendo muita gente incrível, o Brasil é um país sem igual, principalmente por causa dos brasileiros.

Pelas cidades, levo um painel carregado com contos, reportagens e textos de vários tipos que vendo uns por dois, outros por cinco, seis reais. Dia desses escrevi uma história infantil. Paguei duzentos reais para um cara ilustrar, o trabalho dele é realmente muito legal, ficou ótimo. Esse livreto, “A história de Miguel, o sonhador”, vendo por dez.

Estou há vinte dias na estrada. Parece mais, bem mais. Quando se vive dias muito diferentes uns dos outros, se vive intensamente, o tempo passa diferente... Por falar nisso, quando é que tu vai tomar coragem e se aposentar, meu velho? Eu sei que ficar em casa tomando cerveja e assistindo o Faustão não é bem a tua. Tu é um desses velhotes cheios de energia, a cabeça fervilhando de ideias – por falar nisso vi aquele protesto anunciado no site para o início de agosto. Morri de rir com os “personagens sombrios oriundos diretamente do período medieval” e vi de cara que aquele texto é teu. A ideia também, só pode ser. Tenho certeza de que tu, se tivesse conhecido as pessoas certas na juventude, teria saído um baita anarquista, daqueles que leem poesias do Bakunin e tudo.

Queria te dizer que vale a pena se aposentar, Renato. Enfia o pé no mundo e redescobre tudo! Tu tem a coragem que precisa, só deve estar um pouco enferrujado. Agarra a nega veia pela mão e vive tua vida em cada dia. É isso que desejo pra ti, não saberia pedir algo melhor.

Enfim, demorei até agora para mandar essa carta porque queria estar bem quando te enviasse notícias. Posso não estar rico, mas estou feliz, vivo minha vida da maneira que acredito. Vou vender meu trabalho nas ruas do país pra ter o que comer até que alguma editora me publique, tenho certeza de que isso logo acontecerá. Por enquanto vou conhecendo o máximo que posso desse país tão enorme de tirar o fôlego.

Em novembro devo voltar pra casa. Já passei por Curitiba, Londrina e um sem número de cidades pequenas até Bonito. Depois de conhecer as belezas naturais daqui, uma das cidades mais incríveis do país, sigo viagem para Campo Grande, São Tomé (MG), Vitória, até a Bahia. Quero passar um tempo por lá. Na volta vou te fazer uma visita aí no Sindicâmara. Quem sabe marcamos um almoço com a diretoria, ou um tragão mesmo já que beber com os amigos é tão bom!

É isso que eu tinha pra te dizer, presidente. Espero que as coisas por aí estejam muito bem. Manda um abração meu pro Oli, pro Vargas, pro Fabrício, pra Sílvia e um especial pra ti, por conta dos dois anos em que convivemos, rimos, e peleamos.

Se quiser responder esta carta, coisa que eu ia gostar muito, é só mandar para o endereço do remetente. Vou pedir pra minha mãe guardar até que eu volte daqui a alguns meses.
Ate lá, saudades, velho amigo.

P.S.: sempre vou lembrar daquele fim de tarde em que fechamos as cortinas do Sindi juntos pela última vez. Senti uma onda de melancolia tão forte que nem consegui dizer todas as coisas que tinha planejado por semanas e semanas...

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Paraná, rodando, 1º de agosto 2012


Tô anotando aqui alguns lugares por onde estou passando. A coisa ta assim: depois de Londrina atravessei Rolândia e dormi em Jaguapitã (bem-vindo à capital do bilhar). No dia seguinte, passei por Miraselva e Florestópolis rumo a Porecatú. Isto para chegar em Presidente Prudente, a única dessas cidades de qual já ouvi falar. De lá, o plano é seguir pedindo carona até o Mato Grosso do Sul. A Mônica está louca para conhecer Bonito. Acho que vai ser legal.