| O Maurício (esq) e o Léo indo para São Thomé conosco a bordo da Dóris |
Era uma terça-feira no meio de agosto quando
vi dois caras com pinta de estudantes perambulando em um trecho da rodovia
Fernão Dias, em Minas Gerais. Eles passaram o acesso para Pouso Alegre, onde eu
e a Mônica havíamos trabalhado naquele dia, e foram para o mesmo posto de
gasolina em que estávamos.
Lá mesmo no Autoposto Fernandão eles se
apresentaram como Maurício Campos Mena, de 24 anos, formando de cinema da UNB;
e Leonardo Vaz Dias Hecht, 21 anos, também estudante de cinema, contudo, ainda
no meio do curso.
Os jovens cineastas estavam viajando de
carona há sete dias e continuariam por mais algumas semanas. Seu objetivo era a
aventura, a vivência em si, e dela queriam tirar as imagens para a produção de
um filme. Por isso traziam na bagagem uma câmera digital de mão, um tripé e um
microfone-gravador-direcional.
De carona conosco naquela noite e dia
seguinte eles vieram até São Thomé das Letras. Em um posto de gasolina próximo
a Três Corações, pouco antes de São Thomé, eles se deixaram entrevistar para o
Diários do Caminho.
Como
surgiu a ideia de viajar de carona?
Maurício – Eu e o Léo estávamos no corredor
da UNB, em frente à Faculdade de Comunicação e já tínhamos planejado ir para o
carnaval de Olinda. Até já havíamos pago a hospedagem, ou estávamos para fazer
isso. A gente ia. Estávamos sem dinheiro para ir, mas com vontade de conhecer
um pouco mais o mundo.
Essa ideia de pegar carona não é uma ideia
nova, nem para a gente nem para ninguém. Aí eu falei para o Léo: “bóra de carona?”. E ele disse “boto fé”.
Só que acabei não indo para Olinda. Vendi a
minha vaga na casa e o Léo se virou. Aí a gente se organizou para ir agora no
meio do ano.
E
esse plano de pegar carona, deu um pouco de medo ou foi de boa? O que vocês
sentiram?
Léo – Essa coisa de querer pegar carona é um
pouco de querer assumir riscos. De ver que os riscos também estão presentes na
nossa vida cotidiana em Brasília. Claro que na estrada existem vários outros
riscos. Mas como isso é importante estamos dispostos a não saber bem para onde
é que vamos, a passar pelo medo de pegar carona, o medo de não saber com quem
você vai, de ficar nos postos de gasolina ou no meio da estrada.
Sei lá, a minha mãe morre de medo de todas
essas coisas. Em Brasília eu passo por situações tão perigosas quanto essas que
eu estou passando na estrada, mas isso vai me trazer algo que eu não tenho na
minha cidade, no meu cotidiano, que é esse desconhecido. Poder conhecer novas
pessoas, outras culturas e cidades. Isso é algo que me instiga.
O
que vocês diriam sobre o ato de pegar carona, de falar com os caminhoneiros e
tentar convencer eles a levar vocês?
Léo – Eu não sou tão desenrolado quanto o
Maurício nessa coisa de pedir e tal, mas esse molejo que a gente vai criando e
tudo chega a ser meio cansativo. Às vezes a gente fica andando de um lado para
o outro debaixo do sol, aí você conversa com um [caminhoneiro] e ele não te dá,
conversa com outro e ele também não. Tem que ter uma persistência e esse molejo
de olhar para a cara da pessoa na hora e perceber como você pode conversar com
ela algo que aproxime e usar uma linguagem que permita que vocês se entendam.
Essa troca se estabelece em questão de instantes, que é uma coisa ao mesmo
tempo difícil e mágica.
Quando você consegue carona é uma coisa
maravilhosa.
E
para ti, Maurício, como tem sido o ato de pegar carona?
- Cara, em geral eu gosto muito de fazer as
coisas sozinho, sem depender de ninguém. Às vezes fico meio grilado de ter que
pedir coisas para as pessoas, mas também acho que se a gente não faz isso, não
se encontra.
Então é meio que um convite ao choque mesmo.
Não é um lugar seguro, muitas vezes não é confortável. Mas depois que entra ali
[no caminhão] você pensa ‘que vacilo, nada a ver’.
O cara que não deu a carona, tudo bem. As
palavras bateram no vento. Ele provavelmente não vai dar carona para ninguém ao
longo de toda a estrada e ao longo da vida se ele for de estrada.
Sempre me incomoda um pouco o fato de ter que
pedir alguma coisa para uma pessoa que eu desconheço.
Até
agora o que mais impactou vocês?
Léo – Para mim o que mais impactou foram as
conversas que a gente tem durante a viagem. As duas caronas que a gente pegou
até agora, mais longas*, foram muito intensas. As pessoas contam mesmo a vida
para a gente. Às vezes a gente fica seis ou sete horas com elas no carro e é
uma vida inteira que se passa ali, sabe? Nessas caronas a gente mais escutou do
que falou. Parecia que as pessoas estavam muito querendo alguém para conversar.
Claro que elas perguntavam coisas da gente também, mas essas pessoas já tinham
passado por tantas coisas e lugares, e tinham tanta vida. Parece que uma coisa
pulsava nelas, isso que eu achei mais incrível.
Depois que terminavam as caronas e a gente
parava em algum lugar e se preparava para tentar outra carona, nesse momento de
parada eu parecia estar super chapado; como se alguma coisa tivesse me
alterado, me sacudido.
E no
teu caso, o que impactou mais, Maurício?
– Esse encontro não aconteceria de outra
forma. Essa circunstância que é criada [a carona] já acaba traduzindo um
confessionário dentro do carro. As pessoas ficam muito livres para poder contar
a história delas. E a gente se interessa por isso, ficamos perguntando. As
nossas falas em geral são questões.
Talvez com uma câmera, como no nosso projeto
de fazer um filme de estudo, poderia ser um tanto invasivo e não se obteria
essas palavras mais espontâneas como nesse confessionário móvel em que a gente
entra. A gente não sabe nem porque os caras começam a contar a vida deles. E é
muito doido porque eles estão em um movimento interno de reorganização da realidade,
de rearranjar a vida para se comunicar com pessoas que não tem nada a ver com
eles. Esse tipo de situação em que dois personagens que não se conhecem se
encontram acaba criando uma sinergia muito louca dessa confissão de vidas.
De
que forma vocês resolvem o roteiro da viagem?
Maurício – Quando a gente ainda estava lá em
Brasília, no último ponto antes de sairmos, aonde um amigo tinha nos deixado
perto de um posto rodoviário, abrimos o mapa para saber qual era o rumo para a
cidade de São Paulo. Essa era a nossa única rota: ir para São Paulo conversar
com o cineasta Andrea Tonacci.
A gente vai ouvindo informações. Por exemplo,
nesse contato com vocês, estávamos indo para o norte pela Fernão Dias e
desviamos porque vocês falaram a respeito de uma cidade que nos intrigou [São
Thomé das Letras]. A gente vai sendo tocado pelas informações das pessoas que conhece.
Antes
de partir vocês tinham uma ideia sobre como seria viajar de carona, conhecer
várias cidades, se o povo seria receptivo ou não. Como isso ficou agora, com a
experiência de fato?
Léo – Acho que principalmente por esse medo
que vai se disseminando e que fica todo mundo botando na nossa cabeça dizendo
“não, isso é muito perigoso”, essa coisa da classe média de querer ter uma
segurança com tudo, sabe? Por isso acabei me sentindo muito exposto e acho que
foi isso que mudou. A coisa não é tão violenta como dizem, as pessoas não são
tão fechadas.
Claro, tem gente que vai bater a porta na sua
cara, mas isso acontece todo dia. E se você continuar tentando uma hora vai ter
alguém que vai te ajudar, que ta a fim de trocar uma ideia, de sugerir um
caminho. Tem muita gente boa que está disposta a fazer amizade e criar uma
relação.
Vocês
estão viajando com alguns equipamentos de filmagem e tem esse projeto de fazer
um filme com o que gravarem. Sobre o que seria o filme?
Maurício – A ideia do filme é traduzir a nossa
viagem. Ela vem primeiro. Se der um filme, beleza. É meio difícil porque, como
a nossa viagem é de uma errância, as imagens passam a ser não objetivas. Essa
objetividade vai surgir muito mais na pós-produção do que qualquer outra coisa.
Na verdade, a pergunta a fazer sobre o filme,
que filme é esse, é ‘que viagem é essa?’
Léo – O filme parte muito das nossas
impressões da viagem. Que nem o Maurício falou, a viagem vem antes. A partir
dessas experiências a gente quer imprimir algum sentimento. Alguma coisa dessas
errâncias que fique impressa na filmagem.
Agora, a gente está tendo impressões de uma
cidade, de outra cidade. Estamos tentando juntar esses momentos. Mas acho que
para se fazer um filme tem que rolar essa organização do que foram essas experiências.
Quando a gente voltar para a cidade e essa viagem estiver, entre aspas,
concluída, porque eu acredito que na verdade a viagem nunca acaba, que de certo
modo a gente vai colocar pontos nessa viagem para aí se fazer uma narrativa.
Se
vocês pudessem resumir um ideal para as suas vidas, qual seria?
Léo – [risos] Aí você pegou pesado. Eu não
sei. Passo para o Maurício.
Maurício – Curto e grosso? Eu vou mudar o
mundo.
*A primeira carona longa a que o Léo se
refere foi de Cristalina (Goiás) a São José do Rio Preto (São Paulo). A segunda
foi de lá para Limeira (São Paulo).