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sábado, 3 de novembro de 2012

Morro de São Paulo (Ba), sábado, 3 de novembro de 2012


Querida Pietra,

Talvez esta seja a última carta que mando nesta viagem. Daqui a alguns dias estarei colocando meu corpo no mundo outra vez, apontarei o polegar para o alto em busca de caminhoneiros que deem caronas longas rumo ao sul do país.

Como esperado, mochilar pelo Brasil está sendo a experiência mais profunda que vivi até hoje. Os caminhoneiros são pessoas surpreendentes, por exemplo. Conheci um, o Petrúquio, em uma carona de Campo Grande, MS, até Três Lagoas, na divisa com o estado de São Paulo, que era um cara inteligente pacas! Já tinha lido O Xogum e muitos outros livros, na juventude foi professor normalista e sabia bastante das estradas, mulheres e malandragens. Também teve o Elder, que como caminhoneiro era um baita empresário. Lembro que ele dirigia um Volvo muito confortável e bem organizado, tinha outros caminhões rodando com funcionários, era educado e uma ótima companhia.

Em Bonito, MS, tive o prazer de comer no restaurante de comida caseira de um casal que aceitou nos fazer um precinho camarada que ficou bom para todos porque eu e a Mônica íamos lá todos os dias. Tive ajuda em Curitiba também. Um Chileno muito trabalhador de lá ensinou a Mônica a escrever o nome no grão de arroz; esse foi nada menos do que o trabalho que sustentou a viagem.

Sempre que lembro dessas coisas penso como o nosso povo é inacreditável. Como pode, com tantos pedágios, impostos, e achaques policiais, um caminhoneiro ter a coragem de viver de seu trabalho em nosso país? Em Curitiba, os mesmos hippies que nos ajudaram e acolheram com tanto carinho tiveram que impetrar um mandato de segurança para continuar trabalhando na praça em frente à reitoria da universidade federal. Outro dia ainda, na casa do Oberdan, em Ouro Preto, fiquei pasmo ao saber que ele ganhava quase menos que um salário mínimo para trabalhar de recepcionista no Hotel de um dos caras mais ricos da cidade. O milionário Gleiser Boroni, na época candidato a prefeito, descontava até o material de limpeza dos quartos de seus funcionários.

Sério, não paro de me surpreender nunca com a pequenez dessa burguesia nojenta. Aqui mesmo no Morro de São Paulo, fui tomar uma cerveja na segunda praia há dois dias e na hora de pagar a conta, perguntei pro garçom se ele ganhava mesmo os dez por cento. A resposta dele foi ainda pior do que eu esperava. Ele ganha isso. E trabalha aquele guri! Deus do céu, tá sempre rindo, alegre, chamando gente pro bar, serve as mesas, faz de tudo. Nesse dia, injuriado, fui no caixa e falei pra gerência que aquilo era uma vergonha e que nunca mais entraria naquela birosca.

– Esse é o sistema da ilha, moço – tive que ouvir. – É assim que funciona em todo o Morro.

Pietra, perdoe se essa carta está saindo um desabafo, mas é isso mesmo. Estou revoltado pra caralho. Tenho vontade de bater em um monte de gente monstruosa que vejo por aí.

Ontem à noite mesmo. Depois de suar a camisa literalmente andando na areia da praia pra vender artesanato debaixo do sol do nordeste, conseguimos ganhar um dinheirinho, nada de mais. Estávamos esperando este feriadão para guardar alguma coisa para as necessidades da estrada na volta para casa. Ralamos vários dias para pagar o aluguel da quitinete que estamos só para ficar até esse feriado, preparamos nossos trampos direitinho e fomos felizes expor. E tudo isso para chegar um fiscal da prefeitura e dizer na minha cara que eu não posso vender nada por que não tenho licença.

– Ok, senhor, mas o caso é o seguinte: eu fui na prefeitura e solicitei uma licença, só que não vão me conceder porque “já tem gente demais trabalhando na praia”. Roubar eu não vou, quer que eu faça o quê?

– Tem que tirar o painel da rua ou vamos recolher tudo.

Nessas horas o desgosto é muito grande. Tinham uns caras com as namoradas ali na hora, a Mônica estava fazendo colares com os nomes no arroz para eles. Eles mesmos ficaram putos dizendo “nesse país o certo é roubar mesmo!”, “o casal ta trabalhando, deixa eles” etc. E eu tentando falar educadamente com o chefe do fiscal, que era um velho tremendamente imbecil.

Nada contra ele, na verdade. Coitado, também é trabalhador como eu. O problema real é a prefeitura de Cairú cobrar R$ 170 por ano para liberar uma licença de trabalho para hippies que nem os artesãos locais conseguem para si. Ninguém, praticamente, consegue a licença, mesmo que queira pagá-la.

Recolhi meu painel ontem à noite e fui pensando nessas coisas. Estava todo doído do trabalho, fedendo mesmo de suor, a pele queimada do sol forte que fez horas antes naquela tarde. Tentei fazer a sensação de desgosto sair do fundo do estômago tomando uma cerveja com a Mônica, que também estava arrasada, mas aquilo não passava. Então, caminhando de cabeça baixa para casa, passei na praça central e haviam muitas pessoas lá por causa do feriado. Um grupo de tiozões se reuniu para tocar informalmente por ali.

Respirei fundo, tentei ser forte, mas quando começaram os primeiros acordes de Vida de Gado, do Zé Ramalho, não consegui segurar o choro. Puxei a Mônica em um abraço e deixei a coisa rolar mesmo. Uma revolta que todo trabalhador deve sentir de vez em quando, um sentimento de que está tudo errado, de que um povo tão bravo como o nosso não pode ser tratado desse jeito. E, sinceramente, quando digo “bravo”, não é em mim que penso. Mas no meu avô, que para criar os filhos trabalhava o dia inteiro na roça por um quilo de banha e nada mais – morreu pobre depois de décadas de trabalho. Penso na minha mãe que me levava doente para o local de trabalho dela porque não tinha com quem me deixar quando eu era criança.  No meu pai, que é Policial Militar a vida inteira, e que volta e meia perde algum colega de trabalho morto, e que precisa fazer trabalhos extras para complementar a renda.

Por essas coisas mesmo que eu sei que não vou deixar de militar nunca. Enquanto puder vou me organizar com os meus para mudar à força essa realidade injusta. Nunca vou aceitar que digam que o Brasil é mesmo uma merda, porque o Brasil é o povo, e eu nunca vi em filme, e nem em livro, um povo mais sofrido, alegre, lutador e solidário que esse.

Era isso que eu queria te dizer nessa carta, Pietra. Como dizia o Chê: “É preciso endurecer-se, mas sem perder a ternura, jamais”.

Preciso te agradecer pela companhia e força que de fato sinto comigo, assim como a de todos os amigos e familiares que me apoiam sempre. Para mim foi muito importante compartilhar essas coisas. Quero que tu saiba que eu continuo firme no meu sonho. Vou botar meus textos no painel com as outras coisas e sair para trabalhar hoje à tarde e de noite também. Não sei o que vai acontecer, vou deixar nas mãos de Deus, Universo, Vida... Chame como quiser.

Um abraço sofrido,
Felipe.