Tita,
Te escrevo de
uma sacada em um bairro pobre de Londrina. Lá embaixo, no pátio, um pastor
alemão passa o tempo em corridas ao portão para espantar quem vai pela calçada.
Ele se chama Aike, e é um cara legal.
Bebo devagar o
chimarrão enquanto passo os olhos no retrato da paisagem local: do outro lado
da rua, num desses grandes terrenos baldios, um burro magro pasta em touceiras
de mato ralo; um guri pré-adolescente cruza a rua gingando com o celular ligado
no volume máximo (não sei a música, mas é um desses pops americanos); no
terreno do lado esquerdo, alguns montes de sucata lembram uma espécie de arte
abstrata sobre caminhões. Tem um cachorro ali, meio boxer meio vira-latas,
comprido e magro, ele estica o metro de corda que o prende na árvore ao máximo
e fica olhando para dentro de casa, esperançoso. Esse cachorro tem profundas
manchas escuras em volta dos olhos, como se fossem olheiras desenvolvidas pela
tristeza – está difícil me concentrar com ele ali ao lado...
Chegamos em Londrina
hoje, perto da uma da manhã. Eu e a Mônica estamos hospedados com um casal da
nossa idade. Eles são bem bagunceiros e preguiçosos como a gente, estamos bem à
vontade. Já deu para ver que são pessoas bem legais. Ainda não falamos com eles
tanto quanto queremos, porque quando chegamos estávamos cansados da viagem de
Curitiba até aqui e agora eles ainda não acordaram.
Quero dividir
contigo a experiência da viagem. Ao meio dia de ontem chegamos no posto de
gasolina “Guarani”, na saída de Curitiba, onde havíamos passado uma semana.
Comemos pão, margarina e mortadela (estava bom demais) e fomos para a beira da
BR 277 com um papelão que dizia “Londrina, Hippies”. Não sei se foi o cartaz,
ou a nossa cara de empolgados, mas em menos de cinco minutos um caminhoneiro ofereceu
carona. Disse que poderia nos levar até uma cidadezinha a uns 100 km de
Londrina, o que era ótimo, nos faria percorrer dois terços do caminho.
Nas primeiras
horas de viagens ficamos só rindo. Os três, dentro do caminhão, felizes cada um
a sua maneira. O Jessé contou que não costumava dar caronas por medo de
assaltos, embora estivesse contente de ter com quem conversar; e a Mônica e eu
felizes por termos pego carona com um cara simples e simpático no confortável
Mercedez carregado de madeira para fabricação de móveis.
Só que depois de
algumas horas a animação passou. Comecei a sentir um sono invencível na boleia.
Só havia a estrada balançado o caminhão pesadamente em curvas, descidas e
subidas e o sol morno da tarde dentro da cabine. O Jessé, quando me viu pescar,
ameaçou dar um disparo com a pistola de ar de limpar a poeira do caminhão:
“faço isso quando tenho algum amigo viajando comigo e ele dorme”. Odeio ser
acordado com brincadeiras, então dei o melhor sorriso que pude e tentei
resistir ao sono.
Ao longo da
tarde descobri que o Jessé é uma pessoa muito interessante. Carrega uma grande
solidão por estar sempre sozinho nas longas horas da estrada. Às vezes se
diverte, nos contou, gritando bem alto os sertanejos românticos que tocam suas
coletâneas piratas. Tem trinta anos, apesar de parecer um pouco mais, de certo
por causa da pele queimada do sol. Nós ouvimos a história da separação dele, do
casal de filhos pequenos que vê sempre que pode, das prestações do caminhão...
Ele também nos ouviu. Contamos da nossa viagem e outras coisas. Grande Jessé.
Tem bons ouvidos, uma característica rara hoje em dia; e ainda disse que somos
corajosos!
Quando o sol
começava a se por, paramos em um posto. Para nossa surpresa, lá estava uma
hippie que tínhamos visto pedindo carona no começo da viagem. Fiquei muito
empolgado e gritei para ela chegar mais perto do caminhão. Ela pensou um pouco,
de cara feia, com certeza achou que eu preparava alguma piadinha infame. O
Jessé estava ali embaixo e falou com ela. Depois de alguns instantes já
tínhamos embarcado as malas e aquele expositor de PVC com pulseiras e brincos
que os hippies carregam e rodávamos juntos conversando empolgados.
Não vou te
aborrecer com todos os detalhes, mas preciso dizer que a Fran vinha pedindo
carona desde São Paulo porque tinha brigado com o caminhoneiro com quem estava
vivendo. Ela era uma dessas pessoas doídas, espontâneas e com um sotaque misto
de paulista, paranaense e sei lá mais o quê. Disse que a mãe morreu quando
tinha 10 anos, então foi adotada por um casal que batia muito nela. Aos 15
fugiu de casa para escapar do espancamento e desde então não conseguiu mais
sair da estrada. A fran está agora com
26 anos.
Não demorou
muito para o Jessé disparar aquelas cantadas de caminhoneiro (iguais as de
pedreiro) na pobre hippie. Ela ficava quieta nesses momentos, embora fosse bem
falante. Mas todos vimos que o Jessé era um meninão de 30 anos, um romântico inveterado
que se sente muito só. O sonho dele é encontrar uma mulher para dividir a
estrada e a boleia. Pena que seja tão difícil alguém suportar essa vida de
banhos em postos de gasolina, pouco sono e muita pressa.
Em certo ponto
da estrada nos deparamos com um engarrafamento. A pista estava bloqueada porque
dois caminhões tinham se chocado horas antes. Estava tudo parado nos dois
sentidos. Escureceu rápido, a gente continuava conversando, chegamos a
conclusão de que passaríamos a noite parados ali.Tinha mato dos dois lados da
pista, o cheiro era ótimo. A Mônica e eu decidimos sair do caminhão para dar
uma volta. O céu daquela noite estava realmente
estrelado. Víamos aquela poeira brilhante que é a Via-Láctea sem nenhuma
luz que ofuscasse mesmo a menor das estrelas cadentes (vi duas!). Enquanto
andávamos, descobrimos uma escada que subia um barranco. Fomos até lá, perto da
cerca que protegia vários hectares de grama. Lá em cima, protegidos pela
escuridão densa da noite, fizemos amor debaixo daquele céu escandaloso,
sentindo um misto de apreensão e tesão pela vida.
Demorou algumas
horas para o trânsito ser liberado, mas não tanto quanto pensamos no começo. O
Jessé conseguiu nos deixar ainda mais perto do que tinha prometido, ficamos a
uns 30 km de Londrina lá pelas 23h. Quando saímos do caminhão, nos despedimos
com abraços de verdade daqueles que se dá quando se formam as amizades
instantâneas, assim como foi a nossa, Tita. Levo até agora a sensação precisa
de que existem mais pessoas boas do que ruins nesse mundão, e isso me faz tão
bem.
Bom, aqui estou.
Não te vejo desde o meu aniversário no Comitê. Queria saber como tu está.
Lembro de ter ficado muito feliz ao ver que tu se divertia e mostrava mais
confiança na tua própria força. Gosto de te ver andando para frente, mesmo que
nem sempre os passos sejam firmes, o que importa é caminhar. Me pergunto se
algum gaiato conseguiu ir para a tua cama e permanecer lá para tomar café
contigo no outro dia. Te cuida por aí.
Com saudades,
Felipe.