Esse é o hit do momento aqui na Bahia. E se disserem que eu não paro de cantar e fazer os passinhos, é mentira. É MENTIRA!
Eu goosto da neega mulataaa ♫
Diários do Caminho
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
domingo, 17 de novembro de 2013
Manual de Mecânica Para Idiotas
Eaí, galera!
Hoje segue uma postagem muito legal. Descobrimos um manual de mecânica para quem tem um Volks. Nem preciso dizer que tem muita gente na estrada que, como eu e a Mônica, mora em uma Kombi. Para essas pessoas, ou para quem sonha fazer isso um dia "O Manual Para Idiotas" pode ser nada menos que a salvação em diversos momentos difíceis.
Aproveitem a leitura para treinar o espanhol!
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Ô Minas Gerais, tem tanta cachoeira que nem faz falta o mar!
| O Felipe e a Kombinha na Serra da Mantiqueira, em São Thomé das Letras |
Em São Thomé das Letras, a pretendida uma semana que passaríamos lá foi se estendendo até virar dois meses. E de quantas coisas foi feita a estadia em São Thomé! Tantas tardes na cachoeira em plenas segundas-feiras, tomates colhidos no quintal, horas e mais horas preguiçosas na rede, cervejas, batatas assadas na fogueira, estrelas cadentes naquele céu deslumbrante que só existe no interior. E o principal, que foram os tantos amigos. No ritual do Santo Daime aprendi que sem liberdade não há iluminação. No Tai chi veio o mais bonito dos aprendizados: "O homem com o coração aberto para o mundo, tem passarinho no seu quintal". A sede de mundo bateu, a gente seguiu, mas ficou o gosto bom de mais um lugar ter se tornado casa e deixado de ser mais um lugar.
E Minas é assim, cada cidadezinha que a gente para para passar um dia ou dois, nos agarra e nos faz ficar um tempo e dá um trabalhão para conseguir ir embora. Teve São João Del Rei que foi lindo demais, cheio de gente incrível e teve Ouro Preto com suas ladeiras e nossos amigos do coração.
Agora estamos na Bahia. Não vai dar pra ver as chapadas esse ano, já que a família nos mata se não voltarmos pro natal. Mas não tem problema, a estrada é assim, a vida é agora e eu amo Minas Gerais.
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Câmera na mão, pé na estrada
| O Maurício (esq) e o Léo indo para São Thomé conosco a bordo da Dóris |
Era uma terça-feira no meio de agosto quando
vi dois caras com pinta de estudantes perambulando em um trecho da rodovia
Fernão Dias, em Minas Gerais. Eles passaram o acesso para Pouso Alegre, onde eu
e a Mônica havíamos trabalhado naquele dia, e foram para o mesmo posto de
gasolina em que estávamos.
Lá mesmo no Autoposto Fernandão eles se
apresentaram como Maurício Campos Mena, de 24 anos, formando de cinema da UNB;
e Leonardo Vaz Dias Hecht, 21 anos, também estudante de cinema, contudo, ainda
no meio do curso.
Os jovens cineastas estavam viajando de
carona há sete dias e continuariam por mais algumas semanas. Seu objetivo era a
aventura, a vivência em si, e dela queriam tirar as imagens para a produção de
um filme. Por isso traziam na bagagem uma câmera digital de mão, um tripé e um
microfone-gravador-direcional.
De carona conosco naquela noite e dia
seguinte eles vieram até São Thomé das Letras. Em um posto de gasolina próximo
a Três Corações, pouco antes de São Thomé, eles se deixaram entrevistar para o
Diários do Caminho.
Como
surgiu a ideia de viajar de carona?
Maurício – Eu e o Léo estávamos no corredor
da UNB, em frente à Faculdade de Comunicação e já tínhamos planejado ir para o
carnaval de Olinda. Até já havíamos pago a hospedagem, ou estávamos para fazer
isso. A gente ia. Estávamos sem dinheiro para ir, mas com vontade de conhecer
um pouco mais o mundo.
Essa ideia de pegar carona não é uma ideia
nova, nem para a gente nem para ninguém. Aí eu falei para o Léo: “bóra de carona?”. E ele disse “boto fé”.
Só que acabei não indo para Olinda. Vendi a
minha vaga na casa e o Léo se virou. Aí a gente se organizou para ir agora no
meio do ano.
E
esse plano de pegar carona, deu um pouco de medo ou foi de boa? O que vocês
sentiram?
Léo – Essa coisa de querer pegar carona é um
pouco de querer assumir riscos. De ver que os riscos também estão presentes na
nossa vida cotidiana em Brasília. Claro que na estrada existem vários outros
riscos. Mas como isso é importante estamos dispostos a não saber bem para onde
é que vamos, a passar pelo medo de pegar carona, o medo de não saber com quem
você vai, de ficar nos postos de gasolina ou no meio da estrada.
Sei lá, a minha mãe morre de medo de todas
essas coisas. Em Brasília eu passo por situações tão perigosas quanto essas que
eu estou passando na estrada, mas isso vai me trazer algo que eu não tenho na
minha cidade, no meu cotidiano, que é esse desconhecido. Poder conhecer novas
pessoas, outras culturas e cidades. Isso é algo que me instiga.
O
que vocês diriam sobre o ato de pegar carona, de falar com os caminhoneiros e
tentar convencer eles a levar vocês?
Léo – Eu não sou tão desenrolado quanto o
Maurício nessa coisa de pedir e tal, mas esse molejo que a gente vai criando e
tudo chega a ser meio cansativo. Às vezes a gente fica andando de um lado para
o outro debaixo do sol, aí você conversa com um [caminhoneiro] e ele não te dá,
conversa com outro e ele também não. Tem que ter uma persistência e esse molejo
de olhar para a cara da pessoa na hora e perceber como você pode conversar com
ela algo que aproxime e usar uma linguagem que permita que vocês se entendam.
Essa troca se estabelece em questão de instantes, que é uma coisa ao mesmo
tempo difícil e mágica.
Quando você consegue carona é uma coisa
maravilhosa.
E
para ti, Maurício, como tem sido o ato de pegar carona?
- Cara, em geral eu gosto muito de fazer as
coisas sozinho, sem depender de ninguém. Às vezes fico meio grilado de ter que
pedir coisas para as pessoas, mas também acho que se a gente não faz isso, não
se encontra.
Então é meio que um convite ao choque mesmo.
Não é um lugar seguro, muitas vezes não é confortável. Mas depois que entra ali
[no caminhão] você pensa ‘que vacilo, nada a ver’.
O cara que não deu a carona, tudo bem. As
palavras bateram no vento. Ele provavelmente não vai dar carona para ninguém ao
longo de toda a estrada e ao longo da vida se ele for de estrada.
Sempre me incomoda um pouco o fato de ter que
pedir alguma coisa para uma pessoa que eu desconheço.
Até
agora o que mais impactou vocês?
Léo – Para mim o que mais impactou foram as
conversas que a gente tem durante a viagem. As duas caronas que a gente pegou
até agora, mais longas*, foram muito intensas. As pessoas contam mesmo a vida
para a gente. Às vezes a gente fica seis ou sete horas com elas no carro e é
uma vida inteira que se passa ali, sabe? Nessas caronas a gente mais escutou do
que falou. Parecia que as pessoas estavam muito querendo alguém para conversar.
Claro que elas perguntavam coisas da gente também, mas essas pessoas já tinham
passado por tantas coisas e lugares, e tinham tanta vida. Parece que uma coisa
pulsava nelas, isso que eu achei mais incrível.
Depois que terminavam as caronas e a gente
parava em algum lugar e se preparava para tentar outra carona, nesse momento de
parada eu parecia estar super chapado; como se alguma coisa tivesse me
alterado, me sacudido.
E no
teu caso, o que impactou mais, Maurício?
– Esse encontro não aconteceria de outra
forma. Essa circunstância que é criada [a carona] já acaba traduzindo um
confessionário dentro do carro. As pessoas ficam muito livres para poder contar
a história delas. E a gente se interessa por isso, ficamos perguntando. As
nossas falas em geral são questões.
Talvez com uma câmera, como no nosso projeto
de fazer um filme de estudo, poderia ser um tanto invasivo e não se obteria
essas palavras mais espontâneas como nesse confessionário móvel em que a gente
entra. A gente não sabe nem porque os caras começam a contar a vida deles. E é
muito doido porque eles estão em um movimento interno de reorganização da realidade,
de rearranjar a vida para se comunicar com pessoas que não tem nada a ver com
eles. Esse tipo de situação em que dois personagens que não se conhecem se
encontram acaba criando uma sinergia muito louca dessa confissão de vidas.
De
que forma vocês resolvem o roteiro da viagem?
Maurício – Quando a gente ainda estava lá em
Brasília, no último ponto antes de sairmos, aonde um amigo tinha nos deixado
perto de um posto rodoviário, abrimos o mapa para saber qual era o rumo para a
cidade de São Paulo. Essa era a nossa única rota: ir para São Paulo conversar
com o cineasta Andrea Tonacci.
A gente vai ouvindo informações. Por exemplo,
nesse contato com vocês, estávamos indo para o norte pela Fernão Dias e
desviamos porque vocês falaram a respeito de uma cidade que nos intrigou [São
Thomé das Letras]. A gente vai sendo tocado pelas informações das pessoas que conhece.
Antes
de partir vocês tinham uma ideia sobre como seria viajar de carona, conhecer
várias cidades, se o povo seria receptivo ou não. Como isso ficou agora, com a
experiência de fato?
Léo – Acho que principalmente por esse medo
que vai se disseminando e que fica todo mundo botando na nossa cabeça dizendo
“não, isso é muito perigoso”, essa coisa da classe média de querer ter uma
segurança com tudo, sabe? Por isso acabei me sentindo muito exposto e acho que
foi isso que mudou. A coisa não é tão violenta como dizem, as pessoas não são
tão fechadas.
Claro, tem gente que vai bater a porta na sua
cara, mas isso acontece todo dia. E se você continuar tentando uma hora vai ter
alguém que vai te ajudar, que ta a fim de trocar uma ideia, de sugerir um
caminho. Tem muita gente boa que está disposta a fazer amizade e criar uma
relação.
Vocês
estão viajando com alguns equipamentos de filmagem e tem esse projeto de fazer
um filme com o que gravarem. Sobre o que seria o filme?
Maurício – A ideia do filme é traduzir a nossa
viagem. Ela vem primeiro. Se der um filme, beleza. É meio difícil porque, como
a nossa viagem é de uma errância, as imagens passam a ser não objetivas. Essa
objetividade vai surgir muito mais na pós-produção do que qualquer outra coisa.
Na verdade, a pergunta a fazer sobre o filme,
que filme é esse, é ‘que viagem é essa?’
Léo – O filme parte muito das nossas
impressões da viagem. Que nem o Maurício falou, a viagem vem antes. A partir
dessas experiências a gente quer imprimir algum sentimento. Alguma coisa dessas
errâncias que fique impressa na filmagem.
Agora, a gente está tendo impressões de uma
cidade, de outra cidade. Estamos tentando juntar esses momentos. Mas acho que
para se fazer um filme tem que rolar essa organização do que foram essas experiências.
Quando a gente voltar para a cidade e essa viagem estiver, entre aspas,
concluída, porque eu acredito que na verdade a viagem nunca acaba, que de certo
modo a gente vai colocar pontos nessa viagem para aí se fazer uma narrativa.
Se
vocês pudessem resumir um ideal para as suas vidas, qual seria?
Léo – [risos] Aí você pegou pesado. Eu não
sei. Passo para o Maurício.
Maurício – Curto e grosso? Eu vou mudar o
mundo.
*A primeira carona longa a que o Léo se
refere foi de Cristalina (Goiás) a São José do Rio Preto (São Paulo). A segunda
foi de lá para Limeira (São Paulo).
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
On the road again!
A partir de agora vamos usar esse blog para contar nossas
histórias de estrada, dizer por onde andamos, mandar notícias. Mas ele ainda está em construção!
Nossos dois principais destinos são as chapadas (dos Veadeiros, em Goiás e Diamantina, na Bahia), mas até lá não tem roteiro muito certo, vamos seguindo por onde der vontade.
Saímos de São Leopoldo hoje à tarde, empolgadíssimos por finalmente colocar a Kombinha na estrada e com um friozinho alegre na barriga de quem se sente livre e tem um Brasilzão inteiro pela frente. E foi ao som de Rise, do Edd Vedder que a família bicho-preguiça deu a partida.
Há algumas hora paramos para descansar num posto de gasolina em Tubarão e agora estamos cansadíssimos, porém contentes no nosso mundo aconchegante e colorido de dentro da Kombinha.
"Vou jogar a minha pressa na estrada
Vou encontrar a direção magneticamente"
Eddie Vedder
Eddie Vedder
| A imagem não está muito boa e a Isa está brava, mas é o registro de partida da família bicho-preguiça. |
| Felipe no comando da Kombinha |
| Isa tirando uma sonequinha durante a viagem |
P.S.: post atrasado de ontem à noite porque a internet bugou.
sábado, 3 de novembro de 2012
Morro de São Paulo (Ba), sábado, 3 de novembro de 2012
Querida Pietra,
Talvez esta seja a última carta que mando nesta
viagem. Daqui a alguns dias estarei colocando meu corpo no mundo outra vez,
apontarei o polegar para o alto em busca de caminhoneiros que deem caronas
longas rumo ao sul do país.
Como esperado, mochilar pelo Brasil está sendo a
experiência mais profunda que vivi até hoje. Os caminhoneiros são pessoas
surpreendentes, por exemplo. Conheci um, o Petrúquio, em uma carona de Campo
Grande, MS, até Três Lagoas, na divisa com o estado de São Paulo, que era um
cara inteligente pacas! Já tinha lido O Xogum e muitos outros livros, na juventude
foi professor normalista e sabia bastante das estradas, mulheres e
malandragens. Também teve o Elder, que como caminhoneiro era um baita
empresário. Lembro que ele dirigia um Volvo muito confortável e bem organizado,
tinha outros caminhões rodando com funcionários, era educado e uma ótima
companhia.
Em Bonito, MS, tive o prazer de comer no restaurante
de comida caseira de um casal que aceitou nos fazer um precinho camarada que
ficou bom para todos porque eu e a Mônica íamos lá todos os dias. Tive ajuda em
Curitiba também. Um Chileno muito trabalhador de lá ensinou a Mônica a escrever
o nome no grão de arroz; esse foi nada menos do que o trabalho que sustentou a
viagem.
Sempre que lembro dessas coisas penso como o nosso
povo é inacreditável. Como pode, com tantos pedágios, impostos, e achaques
policiais, um caminhoneiro ter a coragem de viver de seu trabalho em nosso
país? Em Curitiba, os mesmos hippies que nos ajudaram e acolheram com tanto
carinho tiveram que impetrar um mandato de segurança para continuar trabalhando
na praça em frente à reitoria da universidade federal. Outro dia ainda, na casa
do Oberdan, em Ouro Preto, fiquei pasmo ao saber que ele ganhava quase menos
que um salário mínimo para trabalhar de recepcionista no Hotel de um dos caras
mais ricos da cidade. O milionário Gleiser Boroni, na época candidato a
prefeito, descontava até o material de limpeza dos quartos de seus
funcionários.
Sério, não paro de me surpreender nunca com a
pequenez dessa burguesia nojenta. Aqui mesmo no Morro de São Paulo, fui tomar
uma cerveja na segunda praia há dois dias e na hora de pagar a conta, perguntei
pro garçom se ele ganhava mesmo os dez por cento. A resposta dele foi ainda
pior do que eu esperava. Ele só ganha
isso. E trabalha aquele guri! Deus do céu, tá sempre rindo, alegre, chamando
gente pro bar, serve as mesas, faz de tudo. Nesse dia, injuriado, fui no caixa
e falei pra gerência que aquilo era uma vergonha e que nunca mais entraria
naquela birosca.
– Esse é o sistema da ilha, moço – tive que ouvir. –
É assim que funciona em todo o Morro.
Pietra, perdoe se essa carta está saindo um desabafo,
mas é isso mesmo. Estou revoltado pra caralho. Tenho vontade de bater em um
monte de gente monstruosa que vejo por aí.
Ontem à noite mesmo. Depois de suar a camisa
literalmente andando na areia da praia pra vender artesanato debaixo do sol do
nordeste, conseguimos ganhar um dinheirinho, nada de mais. Estávamos esperando
este feriadão para guardar alguma coisa para as necessidades da estrada na
volta para casa. Ralamos vários dias para pagar o aluguel da quitinete que
estamos só para ficar até esse feriado, preparamos nossos trampos direitinho e
fomos felizes expor. E tudo isso para chegar um fiscal da prefeitura e dizer na
minha cara que eu não posso vender nada por que não tenho licença.
– Ok, senhor, mas o caso é o seguinte: eu fui na
prefeitura e solicitei uma licença, só que não vão me conceder porque “já tem
gente demais trabalhando na praia”. Roubar eu não vou, quer que eu faça o quê?
– Tem que tirar o painel da rua ou vamos recolher
tudo.
Nessas horas o desgosto é muito grande. Tinham uns
caras com as namoradas ali na hora, a Mônica estava fazendo colares com os
nomes no arroz para eles. Eles mesmos ficaram putos dizendo “nesse país o certo
é roubar mesmo!”, “o casal ta trabalhando, deixa eles” etc. E eu tentando falar
educadamente com o chefe do fiscal, que era um velho tremendamente imbecil.
Nada contra ele, na verdade. Coitado, também é
trabalhador como eu. O problema real é a prefeitura de Cairú cobrar R$ 170 por
ano para liberar uma licença de trabalho para hippies que nem os artesãos
locais conseguem para si. Ninguém, praticamente, consegue a licença, mesmo que
queira pagá-la.
Recolhi meu painel ontem à noite e fui pensando
nessas coisas. Estava todo doído do trabalho, fedendo mesmo de suor, a pele
queimada do sol forte que fez horas antes naquela tarde. Tentei fazer a
sensação de desgosto sair do fundo do estômago tomando uma cerveja com a
Mônica, que também estava arrasada, mas aquilo não passava. Então, caminhando
de cabeça baixa para casa, passei na praça central e haviam muitas pessoas lá
por causa do feriado. Um grupo de tiozões se reuniu para tocar informalmente
por ali.
Respirei fundo, tentei ser forte, mas quando começaram
os primeiros acordes de Vida de Gado, do Zé Ramalho, não consegui segurar o
choro. Puxei a Mônica em um abraço e deixei a coisa rolar mesmo. Uma revolta
que todo trabalhador deve sentir de vez em quando, um sentimento de que está tudo errado, de que um povo tão bravo
como o nosso não pode ser tratado desse jeito. E, sinceramente, quando digo “bravo”,
não é em mim que penso. Mas no meu avô, que para criar os filhos trabalhava o
dia inteiro na roça por um quilo de banha e nada mais – morreu pobre depois de
décadas de trabalho. Penso na minha mãe que me levava doente para o local de
trabalho dela porque não tinha com quem me deixar quando eu era criança. No meu pai, que é Policial Militar a vida
inteira, e que volta e meia perde algum colega de trabalho morto, e que precisa
fazer trabalhos extras para complementar a renda.
Por essas coisas mesmo que eu sei que não vou deixar
de militar nunca. Enquanto puder vou me organizar com os meus para mudar à força essa realidade injusta. Nunca
vou aceitar que digam que o Brasil é mesmo uma merda, porque o Brasil é o povo,
e eu nunca vi em filme, e nem em livro, um povo mais sofrido, alegre, lutador e
solidário que esse.
Era isso que eu queria te dizer nessa carta, Pietra. Como
dizia o Chê: “É preciso endurecer-se, mas sem perder a ternura, jamais”.
Preciso te agradecer pela companhia e força que de
fato sinto comigo, assim como a de todos os amigos e familiares que me apoiam
sempre. Para mim foi muito importante compartilhar essas coisas. Quero que tu
saiba que eu continuo firme no meu sonho. Vou botar meus textos no painel com
as outras coisas e sair para trabalhar hoje à tarde e de noite também. Não sei
o que vai acontecer, vou deixar nas mãos de Deus, Universo, Vida... Chame como
quiser.
Um abraço sofrido,
Felipe.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Nioaque, 14 de agosto de 2012, quase meia noite
Oi, Bárbara Andres!
Onde diabos fica essa grota chamada Nioaque, tu deve estar
se perguntando. Eu também estou querendo saber... No momento estou deitado numa
cama de casal de um hotel muito xexelento com ar-condicionado (que não
funciona), chuveiro (que não desliga – acho que vai sair água a noite inteira),
cheiro de mofo e roupa de cama gordurosa. Não que isso seja um grande problema,
na verdade eu mesmo estou bem gorduroso depois de horas na estrada comendo poeira
dentro de um caminhão velho dirigido por um baita gente boa chamado Marcelo.
Perto do lindo balneário municipal de Bonito pegamos carona
com o Marcelo e sua carga de calcário. Ele nos deu uma carona de 100 quilômetros,
o que é bem bom. Daí tentamos pegar outra carona por coisa de duas horas e
nada. Entardeceu e tivemos que ficar aqui. A cidade é bem pobre, sabe? Pensamos
que não íamos conseguir vender nada, mas até que nos surpreendemos quando com
seguimos fazer 20 pilas, mesmo valor pago por esta cama na qual te
escrevo.
Hoje cedo, quando ainda estava na vida mansa em Bonito, vi
nos feicibuqui que tu comprou uma
bicicleta. Põrran! Ainda disse que estava na pior! Curti a cor da tua Mafalda e
achei que tem tudo a ver contigo uma bicicleta speed. Voa na cidade e apavora
no trânsito aí! Mas te cuida, né.
Agora estou sem internet e, portanto, longe das notícias do
mundo. Claro que não tem wireless no meu hotelzinho. Na real, fico reclamando,
mas tem uma coisa neste pulgueiro que gosto muito. Quando lia os poemas e contos do Bukowski e do
Kerouac também, os personagens sempre acabavam ficando em lugares assim.
Caralho, eu achava aquilo demais. Uma vida simples de mochileiro país afora com
pouco dinheiro no bolso e ficando em lugares completamente fuleiros. Bom, é
estranho estar aqui agora, dentro da literatura que mais tem me apaixonado nos
últimos tempos. Tem sido boa essa aventura.
Logo mais vou enfrentar o chuveiro gelado para ter o gosto
de deitar limpo do lado da Mônica e fazer amor finalmente a sós. Nos últimos
oito dias estivemos no JK do Luiz, que foi quem nos hospedou em Bonito, e não
pudemos nos sentir totalmente a vontade. Por mais que este quartinho seja
simples, não posso reclamar, é nosso.
Para finalizar, quero dizer que nossa viagem está repleta de
altos e baixos onde a vida de uma forma ou outra sempre está tentando nos
animar. Por exemplo: hoje, quando estávamos desistindo de pegar carona aqui
nesse cu de mundo no Mato Grosso do Sul, sujos, cansados e mau-humorados, eis
que algumas araras selvagens surgiram em revoada sobre nossas cabeças.
Eu e a Mônica sempre tentamos aproveitar esses pequenos
abraços que a vida da de vez em quando. Estamos bem um com o outro, até agora
sobrevivemos bem a essa convivência de dias e dias sem parar. Espero que tu e o
Luis também estejam ótimos. Se não, espero que tu esteja. Te desejo toda a
coragem do mundo para tocar as coisas da tua caminhada.
Ah! Espero que tu responda esta carta. Pode mandar para o
endereço do remetente que eu leio quando chegar em casa.
Até lá, saudades!
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