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domingo, 5 de agosto de 2012

Bonito, MS, 5 de agosto de 2012, domingo desgraçadamente ensolarado


Renato,

Tu deve estar se perguntando por que diabos estou mandando uma carta quando é tão fácil passar aí no Sindicâmara e fazer uma visita aos velhos companheiros. Então, explicar isso é o motivo desta missiva.

Nunca mais fui aí, embora não faltasse vontade. Não foram poucas as vezes em que passei perto da nossa sede e quis saber de ti e do pessoal da diretoria. Mas me segurava porque tinha vergonha. Os meses iam passando e eu não estava nem um pouco mais perto de conseguir um emprego de repórter. Isso me envergonhava, não queria decepcionar ninguém, e sempre senti que vocês me tinham em tão alta conta!

Verdade seja dita, quando faltavam dois semestres para terminar a faculdade, eu, no fundo, já sabia que não seria feliz trabalhando como jornalista. São tantas injustiças cotidianas, a verdade espremida entre interesses comerciais, ou matérias feitas só pra agradar o fulano. Tu me conhece, caro presidente, eu tenho esse jeito meio rebelde e nunca aprendi a abaixar a cabeça pra essas coisas. Isso e mais a teimosia herdada do meu pai fariam de mim um grande revolucionário, mas um jornalista desempregado.

Com o tempo foi crescendo a convicção interna de que minha verdadeira vocação estava bem na minha cara, perto, muito perto. Logo depois de terminar a faculdade, em agosto passado, comecei despretensiosamente a escrever um livro. Há anos eu queria fazer isso, um velho sonho que sempre mantive aceso. Por essa época ainda fiz uma última visita ao Sindicâmara, lembra? Estava na pior com os cornos que tinha levado da minha então noiva. Fiquei realmente mal, aquela pancada eu não esperava. Depois pude descobrir que esse mal veio para o bem, a vida é soberana.

Durante o tempo em que trabalhei contigo, consegui guardar uma boa quantia de dinheiro, e como voltei para casa, quase não tive gastos. Isso foi fundamental para eu conseguir sobreviver com alguma autonomia nesse ano que passou. Desde então me descobri escritor. A técnica de produção textual aprendida na faculdade me ajudou pra caramba a produzir com certa qualidade, mesmo pra um escritor iniciante.

Agora meu livro (literatura fantástica, cheio de magia e outras loucuras) está quase pronto. Em novembro, quando terminar a revisão, vou enviá-lo pra a Rocco que está com um processo de seleção para novos escritores. Depois mando pra o máximo possível de editoras e vou seguindo o trabalho. Também tenho um terço pronto de outro livro, este sobre uma serial killer que viaja pelo Brasil matando as pessoas que acha interessantes, como se fosse uma experiência de “dissecar vidas”. O nome dela é Dora, recentemente mandei esse texto pra Fundação Biblioteca Nacional, estou concorrendo a uma bolsa para produção de romances.

Mas como afinal estou sobrevivendo até agora, tu deve estar se perguntando. Bem, no momento, vivo como uma espécie de hippie moderno. Estou fazendo uma viagem de alguns meses pelo país na qual vou anotando e escrevendo coisas (principalmente cartas) enquanto pessoas inscritas num site de hospedagem me chamam para o teto delas por uma semana. Depois, pego carona, eu e minha nova namorada (sabe que eu não sou de ferro, né?!), e vou pra outra cidade aprender sobre as pessoas e lugares. Estou conhecendo muita gente incrível, o Brasil é um país sem igual, principalmente por causa dos brasileiros.

Pelas cidades, levo um painel carregado com contos, reportagens e textos de vários tipos que vendo uns por dois, outros por cinco, seis reais. Dia desses escrevi uma história infantil. Paguei duzentos reais para um cara ilustrar, o trabalho dele é realmente muito legal, ficou ótimo. Esse livreto, “A história de Miguel, o sonhador”, vendo por dez.

Estou há vinte dias na estrada. Parece mais, bem mais. Quando se vive dias muito diferentes uns dos outros, se vive intensamente, o tempo passa diferente... Por falar nisso, quando é que tu vai tomar coragem e se aposentar, meu velho? Eu sei que ficar em casa tomando cerveja e assistindo o Faustão não é bem a tua. Tu é um desses velhotes cheios de energia, a cabeça fervilhando de ideias – por falar nisso vi aquele protesto anunciado no site para o início de agosto. Morri de rir com os “personagens sombrios oriundos diretamente do período medieval” e vi de cara que aquele texto é teu. A ideia também, só pode ser. Tenho certeza de que tu, se tivesse conhecido as pessoas certas na juventude, teria saído um baita anarquista, daqueles que leem poesias do Bakunin e tudo.

Queria te dizer que vale a pena se aposentar, Renato. Enfia o pé no mundo e redescobre tudo! Tu tem a coragem que precisa, só deve estar um pouco enferrujado. Agarra a nega veia pela mão e vive tua vida em cada dia. É isso que desejo pra ti, não saberia pedir algo melhor.

Enfim, demorei até agora para mandar essa carta porque queria estar bem quando te enviasse notícias. Posso não estar rico, mas estou feliz, vivo minha vida da maneira que acredito. Vou vender meu trabalho nas ruas do país pra ter o que comer até que alguma editora me publique, tenho certeza de que isso logo acontecerá. Por enquanto vou conhecendo o máximo que posso desse país tão enorme de tirar o fôlego.

Em novembro devo voltar pra casa. Já passei por Curitiba, Londrina e um sem número de cidades pequenas até Bonito. Depois de conhecer as belezas naturais daqui, uma das cidades mais incríveis do país, sigo viagem para Campo Grande, São Tomé (MG), Vitória, até a Bahia. Quero passar um tempo por lá. Na volta vou te fazer uma visita aí no Sindicâmara. Quem sabe marcamos um almoço com a diretoria, ou um tragão mesmo já que beber com os amigos é tão bom!

É isso que eu tinha pra te dizer, presidente. Espero que as coisas por aí estejam muito bem. Manda um abração meu pro Oli, pro Vargas, pro Fabrício, pra Sílvia e um especial pra ti, por conta dos dois anos em que convivemos, rimos, e peleamos.

Se quiser responder esta carta, coisa que eu ia gostar muito, é só mandar para o endereço do remetente. Vou pedir pra minha mãe guardar até que eu volte daqui a alguns meses.
Ate lá, saudades, velho amigo.

P.S.: sempre vou lembrar daquele fim de tarde em que fechamos as cortinas do Sindi juntos pela última vez. Senti uma onda de melancolia tão forte que nem consegui dizer todas as coisas que tinha planejado por semanas e semanas...

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